3 de dezembro de 2017

Improvisos Elementares

Image result for third ear band 1970Os Third Ear Band foram um colectivo britânico, formado em Londres em meados dos anos 60, imbuído de elevar a música popular a mais altas esferas. Com muito pouco de convencional no que toca à abordagem composicional e à paleta de instrumentos escolhida, o grupo acabou por granjear relativo sucesso à sua época, muito graças ao regime flower power vigente e ao pleno franqueio de portas a todas as abordagens e liberdades musicais.
Longe das fronteiras demarcadas pelo rock, os elementos dos Third Ear Band reclamaram como influências sonoridades oriundas da música indiana, do experimentalismo e da folk mais arcaica.
Se o primeiro álbum da banda - Alchemy, de 1969, que contou com a participação do lendário John Peel - foi uma inovadora pedrada no charco musical do seu período, o seu sucessor consolidou-a como pilar definitivo na vanguarda sonora inglesa.
Editado em 1970, Third Ear Band tornou-se conhecido mais prosaicamente como Elements. A temática é conceptual e centra-se nos quatro elementos terrestres Ar, Terra, Fogo e Água. Os instrumentos que a animam envolvem apenas violino, violoncelo, viola, oboé e percussão. Tudo parece intuir que nos dirigimos de forma incauta para a new age mais pedante e anódina, mas felizmente a obra prova o contrário, mantendo ao longo das suas quatro peças a notável capacidade de abraçar e arrastar o ouvinte na sua cadência hipnótica, contudo sem nunca descurar um núcleo ardente e orgânico, que torna a experiência tão física como espiritual.
Air principia com um sopro forte, que estende a passadeira ao oboé de Paul Minns e ao violino de Ursula Smith, suspensos como folhas ao vento e aguardadas no solo por um ritmo circular, leve mas insistente.
Earth avança pelas sombras de uma dança medieval, lentamente ao princípio, depois num crescendo que a transporta para territórios do folclore balcânico. Um casamento belo e encantatório, que termina tão fugazmente como começou.
Fire surge envolta na transcendência de uma raga indiana, exalando exoticismo em elevadas doses psicadélicas. É a peça mais densa do álbum, mesmérica e penetrante, um convite ao abandono meditativo pelos confins da nossa mente.
Ao tema mais incandescente, segue-se o mais cristalino. Water constitui o culminar beatífico do disco, espargindo uma doce e envolvente melodia que nos transporta para o embalo de ondas marinhas.
Pese embora Third Ear Band entroncar plenamente no zeitgeist que lhe trouxe inspiração e vida, o lirismo musical que guarda continua a ser deveras intemporal e imensamente cativante. Após a sua edição, o grupo enveredou pela feitura de música para filmes e, entre aparições esporádicas e desaparições espontâneas, cessou oficialmente actividades em 1993. Além de irrepetível na história da Third Ear Band, a sua segunda obra merece justamente figurar no panteão dos discos mais singularmente belos e inovadores da sua era.

1 de dezembro de 2017

Aqui d'El Jazz

Related imageO flautista e compositor Bob Downes assumiu-se como uma das figuras mais criativas e inovadoras da cena jazz britânica, projectando a sua sombra numa miríade de contribuições em variados estilos contaminados por este género, que vão da música clássica contemporânea ao rock e à livre improvisação.
O artista de Plymouth foi um dos nomes sonantes e indissociáveis da revolução jazzística ocorrida na Europa nos finais dos anos 60 e que emancipou em definitivo o Velho Continente de décadas de influência e domínio norte-americanos.
Bob Downes participou como músico de estúdio em inúmeras obras seminais gravadas durante esse período dourado. As suas actividades foram, amiúde, executadas sob a égide da baptizada  Open Music, entidade transmutável de trio a big band e que, como a denominação sugere, se encontrava livre de quaisquer restrições ou amarras estilísticas.
Após gravar algumas obras para editoras mais voltadas para o mainstream, Downes arriscou a criação da sua própria editora, chamada Openian Records, na qual principiou o lançamento dos seus projectos, sendo um dos primeiros músicos deste período a avançar com tal empreitada. O álbum de 1970 intitulado Electric City, trabalho curioso, bizarro e, a espaços, genial, apresenta o compositor como um artífice do jazz rock, criando peças curtas, carregadas de energia e ornadas por arranjos intrincados.
A lista dos músicos participantes neste festim é capaz de fazer salivar os amantes do género à época, apresentando sumidades como os trompetistas Ian Carr e Kenny Wheeler, o baixista Harry Miller e o prodigioso guitarrista Chris Spedding. A música é constantemente brilhante e cativante, sugerindo um bulício urbano e nocturno, e as performances virtuosas constituem amplas expressões das várias correntes sonoras que circulam sem restrições pelo disco. Grooves rechonchudos como Crush Hour, inflexões abrasivas pelo rhythm'n'blues como Walking e frescos cinemáticos como o fantástico Dawn Until Dawn são exemplos flagrantes da versatilidade e ecletismo de Electric City. O ritmo quente e propulsante de  Keep of the Glass não destoaria de uma película blaxploitation. Gonna Take a Journey termina o álbum atirando todos os elementos para um caldeirão, enaltecendo um fundo free jazz sem freios com motivos vocais - coisa rara e estranha neste tipo de obras.
Bob Downes continuaria a criar música interessante e continuamente diferente, mas nunca nada similar a esta pérola frenética, a qual continua a ser uma porta de entrada perfeita para o seu mundo singular e um pequeno objecto sónico não-identificado no jazz disruptivo que despontou na Inglaterra e na Europa nas décadas de 60 e 70.

26 de novembro de 2017

Flor Solitária

Os londrinos Synanthesia foram mais um caso perdido na folk vanguardista que despontou no final dos anos 60. Mais um broto cortado antes que lhe fosse permitido florescer em toda a plenitude. Seja pela excessiva proliferação do género na época em epígrafe, seja por pura ignorância e desinteresse do público e/ou das editoras, certo é que este interessante colectivo britânico saiu do alcance dos radares após a edição do seu primeiro álbum e nunca mais voltou para contar a história.
O disco homónimo dos Synanthesia, lançado em 1969, é um inspiradíssimo tratado do tratamento cirúrgico e inovador aplicado à folk britânica dessa década, sendo que merece elevado reconhecimento pela  exibição de inovação associada à intemporalidade. Perfeitamente encaixável no catálogo dos clássicos perdidos, a obra solitária da banda exala misticismo, romantismo e paganismo, não necessariamente por esta ordem. O rigor composicional e a depuração instrumental são elementos relevantes e impossíveis de descartar num trio exclusivamente acústico e sem secção rítmica clássica definida.
As raízes musicais dos membros dos Synanthesia reflectem o ecletismo padronizado na obra. Dennis Homes, vocalista principal - tarefa que acumula com a guitarra acústica e o xilofone - é um homem do rock. Jim Fraser domina os sopros, da flauta ao saxofone, e transita directamente do jazz. O multi-instrumentalista Leslie Cook surge como o elemento da folk mais purista, adicionando elementos como o bandolim e o violino à já rica paleta musical.
Synanthesia carrega a beleza de uma tarde outonal, ora sombria ora solarenga. É um disco aconchegante, embora não desdenhe enveredar por caminhos de estranheza e mistério. Existem várias referências mitológicas ao longo da obra, acentuando a sua vertente dionisíaca. Mnemosyne e Vesta assistem à folk sendo devorada pelo jazz e saindo saciada do banquete. Minerva envereda por luminosos carreiros pastorais e o excelente Morpheus condensa na perfeição o conceito caleidoscópico do álbum.
Igualmente dignos de destaque são o bucolismo acinzentado de Peck Strangely and Worried Evening, a introspecção taciturna mas doce de The Tale of the Spider and the Fly e a melancolia crepuscular de Just as the Curtain Finally Falls. Synanthesia foi alvo de reedição há muito aguardada em 2005, a qual vale, sobretudo, pela adição do único single editado pela banda durante os seus parcos dezoito meses de existência. Intitula-se Shifting Sands e serve uma belíssima e suculenta fatia de folk psicadélica, farta de cores oníricas e abandono melódico.
O único álbum dos Synanthesia reflecte, tal como tantos outros à sua época, uma miríade de influências, que vão de Donovan à seminal Incredible String Band. Não obstante, o tratamento dado pelo trio londrino às suas referências acaba por emulá-las e transcendê-las, o que torna este disco obrigatório para qualquer entusiasta ou completista do melhor que os anos 60 ofereceram em termos de florescimentos musicais.

1 de março de 2017

KO Computer




No ano em que se celebram 20 anos da edição de um dos melhores álbuns de sempre da história do rock - OK Computer -, cumpre lembrar o documentário editado que serviu de discreto suporte à tournée que o acompanhou. 
Realizado pelo britânico Grant Gee, o filme foge de forma flagrante aos formatos convencionais, funcionando como um documento introspectivo e quase esquizóide acerca dos meandros do estrelato e da indústria musical. Em lugar da atmosfera festiva e de comunhão, geralmente associada à vida na estrada de qualquer banda rock que se preze, Meeting People Is Easy é abraçado por uma atmosfera estanque, quase angustiante, que se debruça sobre as agruras dos compromissos, a pressão de agradar, os demónios criativos e toda a mecânica quase kafkiana de editar um disco e divulgá-lo.
Os Radiohead constituem um caso totalmente à parte da música popular desde o seu surgimento. A despeito do sucesso que cedo os bafejou, foram desbravando caminhos por zonas impenetráveis, com uma persistente coragem de fugir à zona de conforto à qual poucos se atreveriam. 
Quase duas décadas após a sua edição, Meeting People Is Easy e o disco que o inspirou continuam mais actuais que nunca. Provavelmente porque foram proféticos na sua encenação do futuro e na inquietude que se impregnou no âmago das nossas existências. You Are A Target Market, lia-se no cartaz do filme aquando do seu lançamento em 1998. Retire-se agora o Market e confirme-se que tudo permanece idêntico.



          

The Rock



Se uma imagem vale mais que mil canções, Mick Rock existe para prová-lo. O fotógrafo britânico, nascido em 1948 e muitas vezes chamado The Man Who Shot The Seventies, ajudou a construir e a imortalizar a iconografia de eminências musicais como Iggy Pop, Syd Barrett ou David Bowie - especialmente na plenitude do alter ego Ziggy Stardust.
Autor de vários livros incontornáveis e alvo de exposições contínuas à volta do globo, Mick Rock consolidou o estatuto de fotógrafo dos fotógrafos do universo Pop Rock pelo estatuto quase mítico do seu trabalho. E, como uma imagem vale mais que mil palavras, nada como visitar o repositório oficial do seu longo e impressionante trabalho. O mesmo não guarda somente parte da história visual da música das últimas décadas. Guarda muito do nosso imaginário e da forma como bandas e artistas tiveram um percurso formativo e influente na construção das nossas personalidades melómanas.

27 de fevereiro de 2017

Folk Púrpura

O primeiro e único álbum dos Fuchsia é um dos tesouros mais recônditos da folk progressiva britânica da década de 70. Esta pérola obscura é puro deleite para ouvidos ávidos das paisagens mais desviantes e psicadélicas pelos quais a música tradicional inglesa enveredou durante esse período. Praticamente ignorado aquando do seu lançamento em 1971, Fuchsia ganhou ao longo do tempo o merecido estatuto de álbum de culto.
O grupo, formado por estudantes da Universidade de Exeter, praticava uma sonoridade dominada por instrumentos tradicionais, mas em que a energia imperava e que revestia a música de uma contagiante intensidade.
Gone With The Mouse, canção que abre esta obra homónima, é um belíssimo exercício de folk ácida, na qual as vozes de Tony Durant e das três vocalistas femininas que dividem a tarefa juntamente com as cordas oscilam entre a luz e as sombras. Os magníficos arranjos orquestrais que envolvem o tema conferem-lhe igualmente um pendor austero, quase gótico. Trata-se, sem dúvida, de uma magistral carta de apresentação.
A Tiny Book mantém o registo fragmentado e progressivo, alternando momentos bucólicos com cavalgadas rítmicas e ornamentos de cordas, em constante território arty. Se alguma vez existiu algo próximo de um groove pastoral, Another Nail enquadra-se perfeitamente na descrição. Baixo e bateria propulsantes aliam-se a cordas eloquentes para uma jornada galopante por campos verdejantes.
Esta tendência continua em Shoes and Ships, porém mais contida. O galope dá lugar ao trote embalador de violinos e violoncelos que complementam a simplicidade de uma guitarra acústica.
The Nothing Song constitui, decididamente, o momento mais psicadélico do disco. A atmosfera geral é escura e contaminada por uma relativa dose de loucura. O tema vagueia e serpenteia, aparentemente sem destino, como um círculo que procura fechar-se sem nunca o conseguir. Segue-se o momento mais despojado do álbum, em Me And My Kite. Na sua simplicidade espartana e quase infantil, o mesmo traz reminiscências das experiências a solo de Syd Barrett, prévios à sua queda definitiva no abismo lisérgico. Just Anyone regressa aos domínios do rock e fecha o disco com a mesma intensidade emotiva do tema inicial.
No contexto da era em que foi editado, Fuchsia é um dos melhores e mais aconselháveis exemplos da folk desviante. É uma obra envolvente e plena de momentos que variam entre o hipnótico e o endiabrado. Nos dias de hoje, em que os tempos são mais cínicos, torna-se complicado apreender um disco como este com total despojamento. Quem guardar dentro de si alguma réstia de sonho e alguma abertura para a fantasia, que o procure.

26 de fevereiro de 2017

Engenho e Arte




Radical, visionário e genial, o laboratório de design Hipgnosis foi fiel depositário de inúmeras concepções artísticas entre 1968 e 1982. Fundada por Storm Thorgerson e Aubrey Powell - aos quais se juntou, posteriormente, Peter Christopherson -, a companhia londrina foi responsável por algumas das mais marcantes e reconhecíveis capas de discos dessa era. O conceito temático da arte criada para suporte visual de álbuns foi totalmente subvertida e surrealizada pela Hipgnosis, sendo que, não raras vezes, o invólucro criativo que guardava as obras musicais era francamente melhor que as ditas.
Numa era absolutamente marcada pelo reinado do vinil, as capas do grupo criativo britânico tornaram-se uma imagem de marca e definiram, igualmente, a imagem colectiva de bandas e artistas como Pink Floyd, Led Zeppelin, Scorpions ou Peter Gabriel. No caso deste último, em termos de técnicas não-ortodoxas, é notória a utilização de uma borracha para o efeito de liquefacção na capa de Melt, bem como a colocação das capas no forno para derreterem.
Salvador Dali, René Magritte e Man Ray são nomes incontornáveis nas influências da Hipgnosis. Numa época em que a maioria da música é consumida por vias digitais, em que o tempo para desbravar uma obra é cada vez menor e em que a atenção aos detalhes escapa ao elevado número de estímulos que bombardeia todos a todo o momento, torna-se idílico relembrar entidades como esta. Apesar de não existir um site oficial da Hipgnosis, esta página contém todo o trabalho artístico encetado pelo grupo em termos musicais. Torna-se igualmente obrigatório um passeio pelo legado deixado pelo entretanto malogrado Storm Thorgerson. 

25 de fevereiro de 2017

Paz e Ruído

No dia 13 de Agosto de 1969 em Paris, o pianista Dave Burrell reuniu-se com alguma da fina flor do jazz da época para registar duas composições da sua autoria. Os seus companheiros de aventura foram Archie Shepp (saxofone tenor), Arthur Jones (saxofone alto), Clifford Thornton (corneta), Grachan Moncur III (trombone), Alan Silva (contrabaixo) e Sunny Murray (bateria). O resultado é uma das obras mais extremas - senão a mais extrema - do jazz improvisado.
Ainda hoje é quase impossível resistir ao choque perante a audição dos primeiros segundos de Echo, a primeira das duas peças que compõem o disco com o mesmo título. Uma amálgama sonora desmorona-se subitamente sobre o ouvinte, numa cacofonia em que todos os instrumentos irrompem num turbilhão sem tréguas. Como se d' A Cavalgada das Valquírias em versão free jazz se tratasse. De acordo com Burrell, o princípio que rege este tema assenta em duas notas amplificadas e repetidas até à exaustão. Segundo o pianista, esta seria uma forma dos músicos descobrirem um grande número de coisas acerca dessas duas notas, bem como deles próprios. Certo é que, se os primeiros momentos do tema parecem querer repelir o ouvinte, com o passar dos minutos a música torna-se um monolito denso e entorpecente. Um redemoinho incessante, de onde irrompem gritos isolados dos vários instrumentos por entre a espiral que os afoga. Tremenda, intensa e imprópria para cardíacos, Echo é uma peça que exige uma aproximação cuidadosa e uma disponibilidade sem preconceitos por parte de quem busca os seus tormentos/encantos.
A segunda composição do disco, Peace, principia de forma mais plácida que a sua antecessora, mas não menos incisiva. Uma dissonante exploração de solfejo desagua num exercício de puro e abandónico improviso. Nas palavras de Dave Burrell, este tema explora a politonalidade, via acordes e arpejos, como um trampolim para alcançar a serenidade. Poucas vezes o jazz foi tão avant-garde como aqui e muitas vezes o jazz dos anos vindouros emulou a sua atmosfera esquizofrénica. A inquieta tranquilidade de Peace convida a meditações despertas e abstracções concretas. Um oxímoro musical, bizarramente gratificante.
Echo acaba por ser um produto típico da era dourada do free jazz. Contudo, poucas vezes alguém conseguiu ir tão longe nos seus intentos como Dave Burrell e seus co-conspiradores neste hiperactivo borrão sonoro. Continua a ser difícil de ouvir. Continua a não ser para todos. Continua a ser lendário.

20 de fevereiro de 2017

This Is The One




O primeiro álbum dos Stone Roses entrou de rompante em 1989 e pintou as terras de Sua Majestade com as pingas multicolores a la Jackson Pollock que a capa do disco tão bem emulava. Salvo raras excepções, o panorama musical do final dos anos 80 tinha-se tornado cinzento, previsível e sensaborão. Pelo menos, nada anteciparia a chegada de algo assim. Um disco intemporal, incandescente e docemente psicadélico, cuja luminosidade e altivez colocava a banda de Manchester num patamar totalmente à parte dos seus pares. A imprensa britânica considerou-os a coisa mais excitante a acontecer na música do seu país desde os Sex Pistols e daí ao firmamento foi um passo. A tendência para o caos e a auto-destruição geraram uma espiral descendente que culminou na edição tantas vezes prometida e adiada de um Second Coming muito aquém das expectativas. Conflitos internos e maquinações da indústria musical deram o golpe de misericórdia aos príncipes da Madchester.
Tudo isto e muito mais é contado rigorosa e exaustivamente em War and Peace, a mais completa biografia dos Stone Roses até à data. Escrito pelo jornalista Simon Spence e editado em 2013, após a surpreendente reunião de Ian Brown, John Squire, Mani e Reni, o livro baseia-se em 400 horas de entrevistas com individualidades próximas do grupo, incluindo antigos membros da sua formação. De jogos de baseball em estúdio usando bolas de bilhar, à fase em que o vocalista Ian Brown apenas comia batatas fritas, passando pela bipolar relação entre a banda e a imprensa, War and Peace tem tudo o que é preciso para agradar a admiradores casuais e a fanáticos de longa data. Aqueles que alguma vez se perguntaram o porquê  de tanta importância dada aos Stone Roses, encontrarão aqui todas as respostas. E o mais certo é ficarem convertidos.

19 de fevereiro de 2017

Em Branco na Selva




No final da década de 1970, Nova York era um local bem diferente de hoje em dia. Uma cidade falida e entregue à sua sorte, um leviatã perigoso e imerso no caos. Porém, estes tempos de profunda crise e incerteza acabaram por produzir alguma da arte mais fascinante, revolucionária e disruptiva do século passado.
Manhattan, em particular, era um local onde florescia a deliquência e a marginalidade. Existências mergulhadas na pobreza e na ausência de perspectivas para o futuro acabaram por reunir os cacos e ruínas disponíveis, delas fazendo emergir um manifesto de intenção tão chocante como libertador.
Um estilo artístico, niilista e ousado, surgiu das ruas escuras, dos prédios abandonados e dos bares infectos. O seu nome seria, apropriadamente, No Wave, e as suas ramificações estenderam-se da música à pintura, passando pelo cinema.
Esta interdisciplinariedade fez com que músicos fossem actores, actores fossem pintores, realizadores fossem produtores. O mote do it yourself estava na ordem do dia. Músicos que nunca tinham pegado num instrumento davam concertos e gravavam discos. Realizadores que nunca tinham pegado numa câmara faziam filmes com os mais básicos dos meios. Era a Blank Generation em todo o seu anárquico esplendor. A geração em branco, sem rumo definido senão utilizar a angústia, a penúria e a raiva com fins criativos e para fugir à crua realidade.
Ao mesmo tempo que se cimentavam nomes para sempre associados ao movimento punk nova-iorquino, como Ramones, Blondie ou Television, projectos mais limítrofes e experimentais alimentavam o negrume latente na Big Apple. Mars, D.N.A., James Chance ou Lydia Lunch fascinavam e estarreciam com a música que produziam. O cinema acompanhou a tendência e envederou igualmente pela transgressão.
Podemos dizer que Blank City - documentário de 2010 realizado por Celine Dahnier - é o retrato definitivo desta época, no que ao cinema diz respeito. Descrição oral, mas acompanhada por uma suculenta dose de imagens de arquivo, Blank City dá voz aos protagonistas que conceberam esta página singular da história da sétima arte.
Realizadores como John Waters, Jim Jarmusch ou Amos Poe juntam-se a Deborah Harry ou John Lurie para relatar as suas influências, memórias, métodos, motivações. O que fica é um extraordinário documento, a narrativa de um tempo em que as artes se imiscuiam sem preconceitos numa cidade mais parecida com uma selva.


   

14 de fevereiro de 2017

Ópio do Povo

A genialidade dos Galaxie 500 (que, por tal sinal, é igualmente um clássico modelo da Ford) parece aumentar à medida que os anos se desenrolam. Sábio nas influências, mas quase inocente na pura expressividade da sua música, o trio de Cambridge, Massachussets levou o rock para territórios de sonho e elevou a melancolia esquizóide das suas canções  a territórios onde os sonhos acontecem em vigília.
A banda editou somente três álbuns de originais durante o seu curto período de duração - entre 1988 e 1991. Discos feitos de canções narcóticas, quase opiáceas, em que as guitarras oscilam entre o sujo e o cintilante e o ritmo embala o corpo num abraço solitário. Descendentes em linha directa da veia mais intimista e cinzenta dos Velvet Underground e do romantismo enérgico e naïve dos Modern Lovers, as obras dos Galaxie 500 constituem-se como alguns dos mais importantes pilares fundadores de géneros como o shoegaze, o dream pop ou o slowcore. Da trilogia que compõe o seu indelével legado, acaba por merecer maior destaque o álbum primogénito, Today, editado em 1988.
I Can Never Calm You Down, as primeiras palavras cantadas por Dean Wareham após o suave crescendo que inicia o superlativo Flowers, dão o mote para a toada geral do disco. Música que flui em quieta inquietação, desespero contido, angústia latente. Flowers é um épico claustrofóbico, um desejo impossível, e fustiga-nos com a beleza dorida e distorcida da sua guitarra. Pictures segue o mesmo trilho, numa espiral para dentro, uma bateria sem pratos, uma melodia repetitiva. E nada mais é preciso para assegurar o efeito anestésico pretetendido.
Se a dor é latente em Today, um exemplo flagrante é Temperature's Rising. Abordando a letra um episódio de vício, a melodia será, certamente, a mais viciosa do disco. Entre o desejo e o arrependimento, a tentação e o suplício, é uma canção assumidamente drogada, na qual a descoberta deu lugar ao êxtase do risco. Parking Lot e Oblivious são os temas mais solarengos do álbum, mas atravessados por uma penumbra agridoce que nunca deixa a luz revelar-se em pleno. Lembram, em certa medida, a frustração sublimada em poesia e substâncias, tão querida dos Smiths. Tal como o prosaicamente intitulado Instrumental, que soa a um encontro nocturno entre Jonathan Richman e Johnny Marr.
Richman acaba por ser, aliás, alvo de homenagem através de uma versão absolutamente electrizante e devastadora de Don't Let Our Youth Go To Waste. Às descargas de feedback da guitarra, o baixo minimal repetitivo de Naomi Yang e o ritmo marcial de Damon Krukowski adicionam uma carga pesada e narcótica que soa a um filho prematuro dos Velvet Underground e Spacemen 3.
Mas a atmosfera outonal de Today acaba por definir-se nos temas mais dolentes e sombrios. It's Getting Late e King of Spain levar-nos-ão sempre ao quarto escuro da adolescência, aquele onde nos reconciliávamos com a perfeição que no mundo exterior nos roubava a beleza, um beijo, um amor. O que nos leva a Tugboat, tema que rivaliza com Flowers como corolário deste magnífico disco. A canção do amor idealizado, da fuga ao real, da simplicidade como triunfo do que importa guardar. E a guitarra, sempre a dedilhar o coração. E a voz, sempre imperfeita de finitude. Em suma, uma catarse musical sublime na sua fragilidade exposta sem artifícios.

7 de fevereiro de 2017

Tempestades Solares

O elemento mais chamativo dos Quiet Sun assenta no facto de serem o primeiro colectivo musical formado por Phil Manzanera, guitarrista que derramou arrojo, audácia e magia nos seminais Roxy Music. Formados originalmente na Faculdade de Dulwich em 1970, os Quiet Sun  alinhavam nas suas fileiras - para além de Manzanera - Bill MacCormick no baixo, Dave Jarrett nas teclas e Charles Hayward na bateria. Apesar de se constituir como um núcleo coeso e de acumular um pequeno culto em seu redor, o quarteto original não editou nenhuma obra digna de registo nos primórdios da sua existência. O fim desta primeira encarnação do grupo surgiria, assim, em 1972, com a disseminação dos seus membros por vários projectos. Manzanera integraria os Roxy Music, como é sabido, MacCormick ingressaria nos Matching Mole e Hayward trataria dos ritmos dos Gong, fundando, anos mais tarde, os assombrosos This Heat. Jarrett foi o único a abdicar da música, tornando-se professor.
Todavia, ditou o destino que os Quiet Sun teriam direito a uma segunda vida, evitando que se tornassem uma eterna e obscura nota de rodapé do rock britãnico dos anos 70. Em 1975, aproveitando um hiato na carreira dos Roxy Music, Phil Manzanera lançou-se na edição do seu primeiro álbum em nome próprio - Diamond Head - e, pelo meio, congregou os seus velhos companheiros universitários para um ritual de ressurreição enérgico e fortemente improvisado intitulado Mainstream. Os quatro acabaram por expandir-se, incluindo Ian MacCormick em erráticas vocalizações e assegurando o vanguardista de todas as épocas Brian Eno  no refinamento das atmosferas e na aplicação das suas estratégias oblíquas. A gravação final assemelha-se vagamente a um cruzamento entre os Soft Machine mais espaciais e os Velvet Underground mais experimentais.
É, não obstante, notório que a sonoridade base dos Quiet Sun bebe maioritariamente do rock progressivo do seu tempo, embora com laivos de inspiração jazzística e exalando o complexo perfume da cena de Canterbury. O elemento mais fresco e irreverente é, indubitavelmente, a guitarra de Phil Manzanera. A mesma serpenteia, rasga e fustiga ao longo de Mainstream. Apesar de mais prosaica, a secção rítmica fornece a base de sustentação para as intrincadas tapeçarias sonoras de Manzanera e os teclados pingam gotas etéreas ao longo da obra. Tome-se como exemplo Sol Caliente, o tema que abre o disco. Ofuscante, vibrante e abrasado pela fuzz guitar, move-se em espirais elípticas no sistema nervoso do ouvinte, libertando estranhas ondas rítmicas que não motivam a dança mas acordam o corpo. O clímax da peça acaba por fundir-se com a seguinte, Trumpets With Motherhood, que mais não é que o seu lento esfumaçar.
Igualmente físico e alucinante é Mummy Was an Asteroid, Daddy Was a Small Non-Stick Kitchen Utensil. O surrealismo do nome não é defraudado pela música, caleidoscópica travessia, feita de curvas e contracurvas, que se afasta progressivamente da terra firme até desaparecer no vácuo. O contraponto entre a guitarra e as teclas é deveras sublime e o tema arrasta-nos para a sua vertigem cósmica, sem hipóteses de libertação.
Trot mantém-nos em suspensão, com um piano em regime de sonata sonâmbula, uma guitarra incandescente e a complexidade rítmica típica da escola de Canterbury. O final chega com Rongwrong. Para manter a toada levemente inusitada que percorre o disco, este é o único tema vocalizado e a voz pertence ao baterista. Composição menos feérica que as anteriores, engloba uma série de fantasias instrumentais e devaneia ao longo de 10 minutos em regime stream of consciousness. Pelo meio ficaram Bargain Classics - momento de pujante e virtuosa intensidade, em que a guitarra e a bateria se degladiam com galhardia pela vitória - e R.F.D., peça flutuante e sombria, dominada pelas teclas e onde a presença de Brian Eno é mais notória.
Mainstream foi reeditado em 2011, contendo quatro extras - essencialmente sobras das sessões de gravação - e uma entrevista com a banda. A sonoridade desta revisitação da obra é de sobremaneira aconselhável e vinca exemplarmente a qualidade e intuição interpretativas dos músicos executantes. Não deixa de ser notável constatar que Mainstream foi gravado em poucos dias, sendo que a maioria dos temas resulta de captações logo ao primeiro take. Em tal estado de graça e inspiração, os Quiet Sun conseguiram o que muitos outros demoram anos - ou obras - a alcançar.